Os Complexos e Psicologia Analítica: Não “ somos senhores absolutos em nossa própria casa."





    A via regia que nos leva ao inconsciente, entretanto, não são os sonhos, como ele ( Freud) pensava,  mas  os  complexos,  responsáveis  pelos  sonhos e  sintomas.
 (Jung, Vol. 8, § 210)



    O termo "complexo" foi uma das primeiras contribuições de Jung para a psicologia profunda, o conceito de complexo levou Jung a sua compreensão de arquétipos e, portanto, juntos, esses conceitos têm servido como uma pedra fundamental para a sua psicologia, a Psicologia Analítica.

     Um complexo é um conjunto de imagens e ideias que se juntam em torno do núcleo de um ou mais arquétipos carregado de forte potencial afetivo. Quando ele se constela, ou seja, entra em ação, ele pode provocar um comportamento incompatível com ego. O complexo é uma entidade autônoma dentro da psique e com energia psíquica própria. Jung afirmava que “complexos se comportam como seres independentes.” 


Experimentos de associação de palavras


    Quando Jung estava no Hospital Burghölzli, ele começou a trabalhar na associação de palavras  com vários colegas, usando de diversos experimentos. Nestas experiências, o sujeito era convidado a responder com a primeira palavra que viesse à mente. Era uma lista composta 100 palavras, palavras como pão, mesa, guerra, tinta, amor, cachorro, cabeça, fiel, água, acidente vascular cerebral e lâmpada ( palavras indutoras). Quando os sujeitos tinham completado a lista, eles também foram convidados a recordar as respostas que haviam dado. Suas respostas eram anotadas, incluindo o tempo para responder, bem como as respostas fisiológicas. Se o tempo de resposta foi particularmente longo, ou a palavra associada era incomum, sem sentido, não lembrada ou acompanhada por emoções particulares, Jung considerou isso um "indicador complexo" e um sinal de conflito psicológico inconsciente.


Trauma e dissociação


    Referente ao trauma e sua relação com os complexos, ressaltou Jung: 


    Hoje em dia podemos considerar como mais ou menos certo que os complexos são aspectos parciais  da  psique  dissociados.  A  etiologia  de  sua  origem  é  muitas  vezes  um  chamado  trauma,  um  choque  emocional,  ou  coisa  semelhante,  que  arrancou  fora  um  pedaço  da  psique (Vol. 8, § 204).


    Isso tem consequências significativas na maneira como entender a psique e Jung percebeu que os complexos seriam "psiques" autônomas e divergentes dentro da personalidade global. Posteriormente ele revisou esse conceito, mantendo sua afirmação que mais frequentemente a causa da origem dos complexos é o conflito, porém  admitiu também que traumas e choques emocionais podem ser responsáveis pelo seu surgimento e estruturação.

Assimilação dos complexos. 



    É de grande importância  a conscientização dos complexos para o conhecimento de  si mesmo, porém temos a tendência de conhecer nossos complexos apenas no nível intelectual. Também é preciso uma confrontação no nível emocional, ou seja, através de descargas emocionais. Assim mencionou Nise da Silveira em "Jung, Vida e Obra":


    Para que se dê a assimilação de um complexo será necessário, junto à sua compreensão em termos intelectuais, que os afetos nele condensados sejam abreagidos. isto é, exteriorizem-se através de descargas emocionais. Os primitivos davam expressão a choques e traumas emocionais por meio de danças e cantos repetidos inúmeras vezes até que se sentissem purgados desses afetos. Nós pretendemos funcionar só com a cabeça. 


    Por conta disso, poderemos palestrar falando sabiamente sobre nossos complexos, mesmo que eles estejam pulsando e agindo compulsivamente em nossas vidas. 


O poder dos complexos


    Como Jung descreveu na sua obra “A Natureza da Psique”,§200

Hoje em dia todo mundo sabe que as pessoas "têm complexos". Mas o que não é bem conhecido e, embora teoricamente seja de maior importância, é que os complexos podem "ter-nos".  A  existência  dos  complexos  põe  seriamente  em  dúvida o  postulado  ingênuo  da  unidade  da  consciência  que  é  identificada  com  a  "psique",  e  o  da  supremacia  da  vontade.

    Os complexos rompem com essa ilusão. Como Jung afirmava, eles são como demônios  que infernizam e pertubam a vida do sujeito. Mas vale frisar que, embora os complexos possam provocar sintomas patológicos, eles não são essencialmente negativos. Eles indicam que algo está em conflito, desintegrado e necessita de mudanças internas. Serão patológicos quando aprisionam uma grande quantidade de energia psíquica, causando prejuízos consideráveis na vida consciente do indivíduo.


Complexos e os Arquétipos

    Quando se fala em complexo paterno, complexo materno, de inferioridade e outros, percebe-se a existência de tipos bem marcantes de complexos. Isso indica que eles possuem bases tipicamente iguais. Essas bases são o que Jung chamou de arquétipos, estes são comuns a todos os humanos. Um complexo de pai repousa no arquétipo de pai, isto é, ele tem raízes ainda mais profundas que a vivência individual. Diante deste prisma, haveria uma forte ligação entre os complexos, com seu material individual, e os arquétipos, o coletivo, o universal, ou melhor, o pertencente a humanidade como um todo. Somos um e também somos todos. No mínimo, uma percepção brillhante de Jung. Ao meu ver, ele foi uma das personalidades mais influentes do século XX.


Fontes Bibliográficas:
C.G.Jung:  “A NATUREZA DA PSIQUE”. Vol.8
Silveira, Nise da: “Jung, Vida e Obra”

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1 comentários

  1. Que felicidade me deparar com esse Blog. Também sou um apaixonado pela teoria do Jung. Gostei do texto e espero conseguir me aventurar mais por aqui e trocar figurinhas contigo. Parabéns pelo trabalho!

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