Os Sonhos e a Psicologia Analítica




Curso online Psicologia Junguiana




    Percorrendo caminhos que vão além da consciência, na abordagem da Psicologia Junguiana, em uma jornada mais complexa e mais profunda, entende o sonho como um mensageiro, mensageiro este que traz espontaneamente e simbolicamente conteúdos inconscientes à consciência na tentativa de promover um diálogo com o ego. Para quê? Sempre quando algo na psique estiver em desequilíbrio, a psique tenderá à autoregulação, isto é, ela vai agir em prol da saúde psíquica. De maneira fascinante, essa é a sua função primordial.



    O desequilíbrio reflete justamente a existência de uma fissura excessiva entre o inconsciente e a consciência. É neste contexto que o sonho expressaria o que o inconsciente está tentando comunicar e o que o ego, centro da consciência, precisa lidar. Pois é ele que irá mediar esse diálogo.


    Para Freud, o sonho realiza um desejo reprimido de forma disfarçada, visto que a consciência censura tais desejos. No processo de Trabalho do sonho ou Elaboração Onírica, como denominou Freud,  o sonho passa por distorções com o intuito de proteger o indivíduo diante de algo que a mente não tem como suportar. Jung teve um outro olhar, para ele o sonho vai muito mais além do que apenas a realização de desejos sexuais reprimidos. Os sonhos possuem múltiplos sentidos e não limitam-se a simbologia sexual. Não se trata de produções absurdas e desprovidas de sentido. O sonho tem sua linguagem própria e essa linguagem é simbólica.


    Símbolo para Jung:
Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e  imediato.  Esta palavra ou esta imagem têm um aspecto 'inconsciente ' mais amplo, que nunca é precisamente definido ou de todo explicado.




    

O sonho não camufla nada, pelo contrário, ele manifesta uma situação do inconsciente simbolicamente, ou seja, ele tem algo relevante a dizer. Entretanto, Jung deixou claro que foi através da obra de Freud, A Interpretação dos Sonhos ( 1900), que  a ciência voltou seus olhos com interesse para entender e estudar o fenômeno onírico. Tema este não desprezado pelos povos primitivos e pelas antigas civilizações.


    Para a compreensão dos sonhos, dois aspectos são relevantes: a causalidade, o por quê do sonho e a finalidade, o para quê. Sendo este último mais importante para Jung. Na causalidade, associa-se os elementos do sonho até chegar a um complexo reprimido, usando uma técnica redutiva. Segundo Jung, com a técnica de associação de palavras, o analista tem como acessar os complexos do paciente e não necessariamente através dos sonhos. Diferentemente, na finalidade, amplica-se os contéudos até que se configure o sentido do sonho. Diante disto, o inconsciente comunica o que a consciência precisa nesse momento conhecer, compreender e transformar.


    Em termos de classificação, na Psicologia de Jung fala-se dos tipos de  sonho, sempre ressaltando que o entendimento do sonho não se deve perder de vista a realidade consciente do sonhador.

    Tipos de sonho:
Sonho compensátorio, inconsciente atuando com sua função autoreguladora. Sempre que a atitude consciente for demasiada, o sonho surge para compensar essa atitude. Exemplo, uma mulher extremamente passiva sonha diversas vezes com situações de agressividade e autoritarismo.


    Sonho prospectivo que antecipam acontecimentos futuros. Eles não profetizam, o próprio inconsciente tem essa capacidade, pois ele possuem informações muito profundas a ponto de fazer “prognósticos”.


    Sonho reativo é aquele que traz repetidamente acontecimentos traumáticos na vida do indivíduo. Comum em pessoas vítimas de violência e sobreviventes de guerras. Traumas são revividos de forma intensa no sonho.


    Sonho telepático é aquele que pessoas diferentes, normalmente com algum tipo de vínculo,  têm o mesmo sonho ou muito semelhante. Jung vai falar sobre a questão da sincronicidade desses sonhos. Exemplo de mãe e filho que têm o mesmo sonho, onde estão cozinhando juntos.


    Em uma outra perspectiva, os sonhos podem ser grandes ou pequenos. Os sonhos grandes afetam muito o emocional do sonhador, trazem significados muito profundos e intensos. Frequentemente são confusos e estranhos. Os pequenos em geral apontam para conflitos da vida cotidiana e não perturbam  fortemente o indivíduo. Jung percebeu essa classificação de sonho entre os primitivos da África Oriental.








    Em O Homem e seus Símbolos, Jung menciona a maneira circular como ele analizava os sonhos dos seus paciente, tendo como centro a imagem onírica:



     O sonho  tem  seus  próprios limites. Sua própria forma específica nos mostra o que a ele  pertence  e  o que  dele  se  afasta.  Enquanto  a livre  associação,  numa  espécie  de  linha  em  ziguezague,  nos  afasta  do  material  original  do  sonho, o método que desenvolvi se assemelha mais a um  movimento  circunvolutório  cujo  centro  é  a imagem do sonho. Trabalho em redor da imagem do  sonho  e  desprezo  qualquer  tentativa do  sonhador para dela escapar. Inúmeras vezes, na minha atividade profissional, tive de repetir a frase: 'Vamos  voltar   ao   seu   sonho.   O que dizia o sonho?'


    Outra questão essencial para a compreensão dos conteúdos dos sonhos é: se faz necessário estudá-los em série. O inconsciente pode utilizar-se de vários sonhos para manifestar uma mensagem. Geralmente, todos os elementos do sonho representam a própria personalidade do sonhador naquele contexto. Relato aqui como exemplo para reflexão um dos meus sonhos recentes que pude fazer uma leitura do possível significado. 
    
     Meu sonho se passou num apartamento de uma antiga amiga, onde eu apresentava os cómodos para mim mesma. O que muito me chamou a atenção foi que no fim dessa apresentação eu mostro um quarto de visita. Este era pequeno, limpo, com claridade e muito bem organizado. Um típico quarto de visita, pois ele deve ser bem “apresentável” não é mesmo?! Porém, eu me pergunto no sonho, onde fica o quarto da bagunça? De repende eu apresento um quarto ao lado, este era grande, não exatamente sujo, mas com um leve cheiro de mofo, escuro, um tanto caótico com início de ordem, repleto de coisas e principalmente ferramentas de construção e jardinagem. Fiquei bem aliviada com esse quarto. Percebi que ele é muito necessário para minha morada ali. Acordei e logo em seguida desenhei meu sonho. Prefiro desenhar, pois me retrata tudo em apenas uma imagem. Quanto ao sonho, ele representou para mim o meu consciente e inconsciente. Fazendo ligação com outros sonhos, esse sentido chegou até a mim. Outro aspecto relevante é: o contexto atual da minha busca por autoconhecimento, isso reflete bem o quarto escuro com suas ferramentas. Com isso, não tenho dúvidas, os sonhos nos guiam na nossa caminhada ao encontro com o Si-mesmo. 







Os sonhos constituem os melhores índices de informação das etapas que o  sonhador esteja percorrendo no caminho da individuação. Assim, estar atento aos sonhos é tarefa da maior seriedade para todo aquele que aspira conhecer-se a si mesmo e fazer desse conhecimento a base para o desenvolvimento de sua personalidade. 

Nise da Silveira


Referências Bibliográficas:

Freud, S. (1900). A Interpretação dos Sonhos. Rio de Janeio: Imago, 2001
C.G.J. O Homem e seus Símbolos. Editora Nova Fronteira, 2015
Da Silveira, Nise. Jung: Vida e Obra. 7ed. Rj. Ed.Paz e Terra, 1981.

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